Além da Guerra nas Estrelas
Para aqueles que gostariam de experimentar o poder da forç(opa!), quero dizer, a influência do mito do herói em outros filmes, minha sugestão é ver “Céu de Outubro” (October Sky – EUA – 1999), já lançado em DVD no Brasil.
Apesar de não ter nada a ver com o filme de Lucas, o enredo utiliza os mesmos elementos básicos descritos no livro de Campbell, com resultados muito bons na minha opinião, ou seja, um filme que as pessoas gostam, às vezes sem saber por quê.
Já para os fãs mais hardcore que acham que já viram tudo sobre Guerra nas Estrelas, outra sugestão é o filme “A fortaleza escondida” (Kakushi-toride no san-akunin – Japão – 1958), lançado no Brasil pela Continental Vídeo.
Muitos juram de pé junto que essa obscura obra de Akira Kurosawa, inspirou o filme de George Lucas.
Descobri esse DVD meio por acaso num sebo — que me chamou a atenção o fato de ser um filme de Kurosawa — quando topei com essa bizarra descrição na contracapa do estojo.
UAU!!! Comprei o DVD, levei pra casa, assisti o filme de cabo a rabo e, fora algumas similaridades — como a interação da dupla Tahei e Matakishi (que lembram vagamente C3PO e R2D2), a trama de resgatar uma princesa e alguns efeitos de transição na horizontal —, dizer que ele inspirou Guerra nas Estrelas é meio que forçar a barra.
Esse mistério foi mais ou menos esclarecido numa entrevista citada no IMDB, onde Lucas disse conhecer o filme, mas negou que a história de uma princesa e de seus protetores seja o principal elemento que inspirador de Guerra nas Estrelas.
Segundo o diretor, seu interesse nesse filme de Kurosawa foi mais na maneira de como a história se desenrola perante o olhar de dois personagens menores da trama — Tahei e Matakishi — que, no seu caso, seria a dupla de robôs C3PO e R2D2 — que também contribuem com as cenas cômicas.
Trivia:
Em japonês, “akunim” significa “homem mau” ou “vilão”. Desse modo, o título original do filme — “Kakushi-toride no san-akunin” —, poderia ser traduzido literalmente como “Três vilões da fortaleza escondida”, o que não bate bem com a história.
Foi melhor tirar os homens maus do título.
Sobre livros e vinhos
Pequenas jóias do marketing eletrônico:
Pesquisando sobre onde encontrar o livro “O herói de mil faces” na Internet (citado no meu post anterior), notei que o site Submarino.com está vendendo esse título também numa curiosa oferta casada do livro com uma garrafa de vinho argentino que, segundo sua descrição no site “é um prazer hedonístico, e uma barganha pelo preço!“
A oferta dá direito a um desconto de 3 reais no valor final da compra.
Será que eles querem dizer que, para digerir um livro sobre mitologia, só enchendo a cara com um vinho barato? :^)
O tempora! O mores!
Filmão de meia idade
Meu colega Rafael Rigues me passou a informação de que o próximo dia 25 de maio marca o 30º aniversário do lançamento do filme Guerra nas Estrelas (Star Wars) nos cinemas.
Considerada a última “guerra bacana” do século 20, o filme entrou em cartaz dois meses após a chegada do Apple II ao mercado, sendo que ambos — cada um a seu modo — detonaram uma verdadeira revolução cultural que varreu o planeta, a ponto de serem considerados hoje quase que uma religião entre seus fãs mais fervorosos.
Como todo fã de Guerra nas Estrelas já sabe (ou deveria saber), o sucesso desse filme não foi apenas por causa dos seus efeitos especiais, e sim graças à sua história, que tocou fundo no inconsciente das pessoas. O próprio Lucas não cansa de dizer em entrevistas que sua história foi fortemente influenciada pelas idéias do professor Joseph Campbell, sobre o Mito do Herói.
Segundo o que diz Bill Moyers, criador do documentário “O Poder do Mito” (disponível em DVD no Brasil) em um dos episódios da série, para ele, Guerra nas Estrelas nada mais é que uma velha história contada de uma maneira nova. Um verdadeiro mito contemporâneo no sentido mais divino da palavra.
O mito do herói foi descrito pela primeira vez em 1949 no livro “O Herói de Mil Faces” e também publicado no Brasil pela editora Cultrix/Pensamento. Para o autor, o mito do Herói é um tema universal e recorrente em várias culturas espalhadas pelo mundo e em vários períodos históricos.
A grande sacada desse livro foi a de analisar, decompor e classificar os principais elementos desse tipo de história nos seguintes temas básicos:
1 – A partida, divida em:
1.1 – O chamado da aventura
1.2 – A recusa do chamado
1.3 – O auxílio sobrenatural
1.4 – A passagem pelo primeiro limiar
1.5 – O ventre da baleia
2 – A iniciação, divida em:
2.1 – O caminho das provas
2.2 – O encontro com a deusa
2.3 – A mulher como tentação
2.4 – A sintonia com o pai
2.5 – A apoteose
2.6 – A benção última
3 – O retorno, divido em:
3.1 – A recusa do retorno
3.2 – A fuga mágica
3.3 – O resgate com o auxílio mágico
3.4 – A passagem pelo limiar do retorno
3.5 – O senhor dos dois mundos
3.6 – Liberdade para viver
Aqueles que conhecem a trilogia original de trás pra frente podem perceber trechos do filme nessa lista.
Por exemplo:
Obi Wan Kenobi (o auxílio sobrenatutal), convida Luke Skywalker (nosso herói) para acompanhá-lo na sua missão de levar os planos da Estrela da Morte para os rebeldes (o chamado da aventura).
Apesar de ser tudo que ele quis na vida — dar o fora de Tatooine —, ele primeiro amarela e não aceita o convite (a recusa do chamado), arrumando uma desculpa esfarrapada de que precisa ajudar o tio na fazenda. Problema resolvido pela guarda imperial, que o liberta das responsabilidades mundanas, liberando-o para a grande jornada.
Sua chegada à Mos Eisley e a entrada na cantina, ou talvez seu primeiro contato com a força (treinando com o sabre de luz de olhos vendados), marca sua “passagem pelo primeiro limiar“.
A invasão da Estrela da Morte pode ser interpretada como o início do “caminho das provas” e o primeiro encontro com a princesa Léa, o “encontro com a deusa” e/ou “a mulher como tentação“.
A descida até as “entranhas” da Estrela da Morte — ou mais exatamente o triturador de lixo — pode ser considerada o “ventre da baleia” (referência bíblica à história de Jó e a baleia).
A batalha de Yavin que terminou com a destruição da Estrela da Morte, marca o fim do “caminho das provas“, com uma verdadeira”apoteose“, e a condecoração no final do filme, a “benção última“.
Com isso, Lucas foi capaz de criar uma história atraente para quase qualquer público, mesmo para aqueles que não curtem ficção científica. O curioso é que já ouvi muitos muitos dizerem que não gostaram tanto das seqüências como do primeiro filme, em especial da segunda trilogia, infinitamente mais impressionante em termos visuais.
De qualquer modo, nossos parabéns para George Lucas!
Apesar de querer apenas fazer um filme de sucesso, tanto ele quanto Steve Jobs conseguiram mudar o mundo — cada um a seu modo. :^)