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bits, bytes e bravata!

Calculadora eletrônica faz 40 anos

No final da semana passada, meu colega Peter Moon escreveu uma matéria no IDG Now! sobre os 40 anos da invenção da calculadora eletrônica, complementada com um slide show que mostra a evolução das máquinas de calcular.

Entre as peças históricas citadas por Moon estão o protótipo da primeira calculadora portátil desenvolvida por Jack Kilby, Merryman e Tassel, na Cal Tech com seu curioso visor de fita de papel; a HP-35, primeira régua de cálculo eletrônica da Hewlett Packard, que popularizou (meio da porrada) a cabalística lógica RPN; e um produto meio obscuro que me chamou a atenção pelo destaque: o Casio-Mini.

A história por trás dessa singela calculadora e da empresa que a criou é, no mínimo, interessante e vale a pena ser contada.

Yubiya PipePara quem não sabe, o primeiro grande sucesso de vendas da empresa que se chamaria Casio Computer Co. foi o yubiwa pipe (foto à esquerda), uma engenhosa piteira na forma de anel (yubiwa em japonês) que permitia que os fumantes japoneses do pós-guerra fumassem seus preciosos cigarros até o talo ao mesmo tempo que deixava a mão livre para trabalhar. O ângulo para fora do cigarro mantinha a brasa da bituca longe da mão do usuário.

Com o lucro obtido com essa engenhoca, Tadao Kashio (Kashio = Casio) e seus irmãos desenvolveram sua primeira máquina de calcular eletromecânica em 1954, colocando a Kashio Seisakujo no negócio de fazer contas.

Em 1972, a empresa colocou no mercado o Casio-Mini com o preço sugerido de 12.800 Ienes (41 dólares pela cotação da época) — uma bagatela se considerarmos que uma HP-35 não saía por menos de 395 dólares.

Casio Mini

Se comparada com a HP-35, a calculadora dos irmãos Kashio não parecia ser algo a ser levado a sério, mas ela provou ser um produto certo no momento certo, mesmo com todas as suas limitações que não eram poucas.

Para os padrões atuais, o Mini não é uma calculadora pequena (14,5 x 7,5 x 4 cm — LxAxP). Quase 1/4 do seu espaço interno era ocupado por 4 pilhas pequenas do tipo AA, o que permite que muitos exemplares funcionem até hoje (incluindo o meu aí da foto). :^)

Uma das maiores esquisitices do Mini era a impressão de que ela trabalhava só com números inteiros, ou seja, tanto o seu teclado quanto o seu visor de 6 dígitos (outra medida de economia) não tinham ponto decimal!

Na verdade o Mini trabalhava sim com decimais (por causa das divisões), mas tal informação era registrada internamente e não era mostrada no visor a não ser que uma tecla especial fosse pressionada [>] (entre as teclas [0] e [-]).

Por exemplo: ao dividir 1 por 3, no Mini, o resultado é zero! (#@$%&*!). Mas ao pressionar a tecla [>], surge no visor “333333”, ou seja, o resultado correto seria “zero” inteiro e “333333” decimais, ou mais exatamente “0,333333”. No caso de 5 dividido por 2, o resultado seria 2 inteiros e 5 decimais (2,5).

Isso pode parecer uma solução meio capenga, mas acredito que o Mini se encaixava bem às necessidades do japonês médio da época, cujas demandas de cálculo estavam quase que sempre relacionadas com transações comerciais ou financeiras onde as somas e subtrações predominam. Se lembrarmos que o sistema monetário japonês não trabalha mais com “Sen” (frações de Iene) há décadas, o ponto decimal não era problema para o público-alvo do Mini.

Estranho? Abrir mão de recursos em favor de preço era algo comum décadas atrás. Um bom exemplo são algumas câmeras compactas ou de baixo custo que até os anos 1970 ainda eram vendidas sem mecanismo de ajuste de foco. Na prática, o fotógrafo batia o olho no seu assunto, estimava a distância (em metros ou pés) e passava o valor diretamente para o anel de foco da objetiva usando o visor apenas para enquadrar a foto. Daí o apelido em inglês guesstimate focus.

Câmeras clássicas como a Rollei 35, Minox 35, Voightlander Vito e Perkeo e até mesmo a boa e velha Olympus Pen e Trip 35, trabalhavam com algum tipo de foco chutado.

O desenho do Mini com seu layout na horizontal parece ter sido fortemente influenciado pelo ábaco japonês (soroban), já que o modo de segurar o Mini sobre uma mesa — firmando a calculadora com a mão esquerda e fazendo contas com a direita — é o mesmo desse milenar instrumento de cálculo, o que tornaria o seu uso bastante familiar e confortável tanto para japoneses quanto ocidentais destros.

Apesar do seu importante papel na vida das pessoas de ontem e de hoje, as calculadoras eletrônicas passam por um período de estagnação tecnológica.

No geral os cálculos complexos são realizados em PCs, sobrando para as calculadoras o papel secundário de fazer as somas e subtrações do dia a dia, o que não é pouco se levarmos em consideração que muitas pessoas desaprenderam a fazer contas de cabeça ou mesmo no papel.

Se você é uma delas, não se envergonhe por isso.

Segundo Larry Gonick autor do livro Introdução Ilustrada à Computação (com muito humor!), a arte de fazer contas no papel só se tornou possível graças à invenção do “zero” (símbolo que descreve uma casa decimal vazia) em 650 D.C. na Índia. Ou seja, ela está conosco por apenas 1,3 mil anos.

Bem antes disso os romanos já usavam algum tipo de instrumento de cálculo como ábacos, assim como os chineses. Os Incas usavam o Quipu (uma espécie de colar de fios com informações codificadas em nós), cuja peça mais antiga data de mais de 5 mil anos atrás.

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22 abril, 2007 - Posted by | Notícia

2 Comentários »

  1. Mário!! Adorei essa história. Muito boa….

    Comentário por Renata | 24 abril, 2007 | Responder

  2. Cara, muito interessante o artigo! Uma pena ter pouca divulgação..
    Parabéns!
    Abraço!

    Comentário por Alexandre | 9 agosto, 2007 | Responder


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