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Hoya-Pentax: uma união complicada

A revolução da fotografia digital pode fazer mais uma vítima nos próximos meses.

Depois de empresas, como a Minolta, que vendeu sua divisão de câmeras para a Sony, ou a Fuji Film, que começa a investir em novos negócios (como produtos de health care e até cosméticos), pode ter chegado o momento da verdade para a Pentax, que passa por uma crise que ameaça sua própria identidade.

Os primeiros sinais de fumaça apareceram no final do ano passado, época em que foi anunciado que a Hoya — empresa líder na fabricação de vidros ópticos — iria absorver a Pentax, formando-se assim a Hoya Pentax HD Corp., cujo processo de integração estaria completo até outubro de 2007.

Os problemas começaram em abril desse ano, quando a Hoya deixou a entender que, depois da fusão, poderia vender a divisão de câmeras — já que seu interesse estava sobre os instrumentos ópticos de uso médico da Pentax. Isso armou um verdadeiro barraco entre os executivos da Pentax, que promoveram um golpe de estado, botando pra fora seu presidente Fumio Urano — principal defensor da fusão — e melando assim o processo.

Mas no final das contas, pressionada pelo mau humor dos acionistas, a Pentax acabou aceitando uma nova proposta mais amigável feita pela Hoya, o que pode mudar em muito a cultura corporativa da empresa.

Segundo declarações do diretor Shinichiro Mitsuhashi, para o Japan Times nessa semana, o estilo gerencial da Pentax é bastante provinciano se comparado com o da Hoya, que adota um modelo mais racional que prioriza o lucro acima de tudo.

Fundada em 1919 como Asahi Optical Joint Stock Co., a Pentax começou como uma pequena empresa familiar que produzia lentes para óculos. Depois de destruída durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, a empresa ressurge das cinzas como Asahi Optical Company, produzindo binóculos e telescópios de alta qualidade.

Mas, ao contrário de seus concorrentes que se limitavam a copiar ou “melhorar” o desenho de câmeras alemãs (mais sobre isso em outro post), a Asahi optou por desenvolver uma câmera de desenho próprio, usando como referência uma velha Reflex-Korelle que o dono da empresa, Saburo Matsumoto, comprou antes da guerra.

O resultado foi o desenvolvimento, em 1952, da primeira câmera reflex de uma só objetiva (SLR) feita no Japão. Dois anos após, a empresa apresentou para o mundo a Asahiflex IIB, a primeira SLR com sistema de retorno automático do espelho — uma revolução tecnológica que tornou a câmera SLR um produto realmente prático e viável.

Para quem não sabe, a grande sacada das câmeras SLR é um pequeno espelho móvel localizado no seu interior entre a objetiva e a cortina do disparador. Ela capta a luz vinda da lente e a desvia “para cima” — em direção do visor da máquina —, onde o fotógrafo pode verificar com precisão tanto o foco quanto o enquadramento da cena. Ao pressionar o disparador, o espelho sobe para uma posição rente ao teto da câmara do filme, permitindo a exposição do filme.

O grande revés desse sistema antes da Asahiflex IIB, era o de que, até rearmar a câmera, o espelho permanecia levantado, bloqueando assim seu visor, deixando o fotógrafo literalmente “cego” (efeito conhecido como blackout). Isso fazia com que os fotógrafos de ação e fotojornalistas preferissem as câmeras de visor direto (como as Leicas) ou mesmo as TLRs (como as Rolleiflex) para realizar seus trabalhos.

O bizarro é que os fabricantes vendiam essa limitação como vantagem, já que ela impedia que um fotógrafo tentasse tirar uma foto sem rearmar a câmera. Isso pode ter até atrasado a solução desse problema, uma vez que as grandes SLR da época (como as Zeiss Ikon Contarex e Contaflex, Voigtländer Bessamatic e as Ihagee Exakta Varex — por sinal todas alemãs) demoraram muito para adotar tal solução, contribuindo assim para a sua decadência e posterior colapso perante a inovadora indústria fotográfica japonesa.

Curiosamente, nos anos 1970 a Pentax firmou um acordo tecnológico com a Carl Zeiss alemã, cujo negócio rendeu mais frutos para os japoneses que para os alemães que fugiram logo dessa associação, arrumando uma parceria muito mais interessante depois de alguns anos com a Kyocera/Yashica, que reintroduziram com muito sucesso, a marca Contax no mercado.

Foi nessa época em que a Pentax introduziu sua baioneta Pentax-K (baseada num desenho original da Zeiss) e o sistema de multi-coating de lentes, conhecida como Takumar SMC (Super Multi Coating).

Durante as últimas décadas, a Pentax emplacou outros sucessos, como a linha Spotmatic (com engate de lente com rosca), os modelos KM , ME, MX e LX e o legendário modelo K-1000 — considerado o fusca das SLR por causa do seu desenho simples e robusto e preço bastante acessível. Por essas e outras, aqui no Brasil a K-1000 era a preferida nos cursos de fotografia e a primeira SLR de muitos amadores (incluindo este que lhes escreve).

Curiosamente, 2007 marca o cinqüentenário do lançamento da primeira câmera SLR da Asahi com pentaprisma fixo, cujo desenho influenciaria o desenho de praticamente todas as SLRs durante as próximas décadas : a Pentax original.

Hoje, a Pentax ainda produz câmeras digitais muito boas, como a linha Optio e as SLR *ist, cujo corpo também é usado (em regime de OEM) pela Samsung. Entretanto, ela não é mais páreo para concorrentes, como Nikon e Canon que dominam quase 80% do mercado mundial de SLR digitais.

Ryosuke Katsura, analista sênior da Mizuho Securities Co., disse para o Japan Times, que os funcionários da Pentax se parecem mais com artesãos do que com executivos preocupados com lucro.

Seria uma pena que uma empresa de tradição como a Pentax acabe apenas como uma nota de rodapé na história, ou mesmo como uma marca de aluguel como a Voigtländer, que hoje empresta seu prestígio para as novas rangefinders e lentes da Cosina, empresa que sempre teve boas idéias, forneceu produtos em OEM para meio mundo como a Rollei, Vivitar, Olympus e até a Nikon, mas que nunca conseguiu impor sua própria marca como uma força do mercado.

Um bom exemplo é a cultuada Epson R-D1 Digital Rangefinder Camera, cujo corpo foi projetado e produzido pela Cosina.

Para saber mais sobre as origens da Pentax e da Asahiflex, clique aqui.

Atualização de última hora (28/05):

Foi divulgado nesse final de semana, que toda a diretoria da Pentax Corp irá se demitir no próximo mês de junho, acompanhando a decisão do atual presidente Takashi Watanuki, que assumiu a responsabilidade pela confusão causada pela a proposta de absorvição pela Hoya.

Watanuki assumiu o cargo de presidente, depois que a diretoria forçou a saída de Fumio Urano, que arquitetou o acordo original.

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25 maio, 2007 - Posted by | Fotografia, Notícia

2 Comentários »

  1. POR FAVOR GOSTARIA DE SABER ONDE POSSO COMPRAR FILME PARA MÁQUINA DE FOTOGRAFIA PENTAX AUTO 110. MORO NO RIO DE JANEIRO.

    MUITO OBRIGADO.

    IVAN

    Comentário por ivan pereira dos santos | 31 janeiro, 2008 | Responder

  2. Caro Ivan,

    Até onde eu saiba, filme cartucho tipo 110 não é mais comercializado pela Kodak nem pela Fuji a vários anos. Caso você encontre algum à venda, verifique se o mesmo não está vencido.

    Comentário por mnagano | 31 janeiro, 2008 | Responder


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