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bits, bytes e bravata!

Universo Paralelo

Todos os apreciadores da cultura japonesa — em especial aqueles que moram na cidade de São Paulo e proximidades — têm um carinho especial pela Liberdade, bairro que se tornou referência para a comunidade oriental no Brasil.

No local, pode se encontrar todo tipo de produto e serviço vindo e/ou inspirado pelo outro lado do planeta, como restaurantes típicos, livros, revistas, vídeos, presentes, artigos de mercearia e até mesmo algumas guloseimas ainda raras por aqui — como takoyaki (bolinha de massa com recheio de polvo) , suco de abóbora d’água e o inusitado picolé made in Korea, nos sabores melão, morango, banana e feijão azuki.

Ao mesmo tempo, esse canto de Sampa sempre foi considerado um porto seguro para a comunidade oriental, principalmente entre os imigrantes de primeira geração, cuja proximidade entre os indivíduos de mesma origem permite até viver por aqui sem ter de falar português direito, seja ele um japonês, chinês ou coreano.

Para os brasileiros que já se perguntaram como é ser um descendente de japonês no Brasil, é possível sentir um gostinho passando por um dos sites da comunidade brasileira no Japão. Um bom exemplo é o jornal Tudo Bem Online, publicado pela editora JBC — mais conhecida por aqui graças à revista Made in Japan.

Navegar por esse site é o mesmo que ser transportado para um universo paralelo e invertido, onde o brasileiro é o estrangeiro que se vê imerso numa cultura, num idioma e numa escrita praticamente desconhecidas e se preocupa com coisas simples do cotidiano como aprender a se movimentar pela cidade, regularizar sua documentação, encontrar escola para os filhos ou mesmo achar algo que lembre sua terrinha natal, como restaurantes típicos, livros, revistas, vídeos, presentes, artigos de mercearia e até mesmo algumas guloseimas ainda raras por lá, como pão de queijo, guaraná, pastel(1), coxinha de frango, etc.

Veja por exemplo, esse trecho tirado de uma matéria recentemente publicada no Tudo Bem:

Abre aspas:

Chiryu tem novo centro de compras

29.05.2007 – Redação Tudo Bem

Moradores de Chiryu (Aichi) contam com mais uma opção para fazer compras: o Shopping Brasil. Instalado em um prédio de dois andares, o estabelecimento dispõe de mercado, açougue, padaria, loja de roupas e cosméticos, reunindo em um só ponto diversas opções de produtos.
(…)
No piso térreo, o Shopping Brasil possui mercearia, padaria e açougue, com grande variedade de produtos. Até salgados e pães de queijo são servidos no estabelecimento. Nos fins de semana, dias de maior movimento na loja, também são vendidos frangos assados.

Fecha aspas.

Qualquer semelhança com alguma lojinha na Liberdade não é mera coincidência.

E se por aqui se comemora o Tanabata Matsuri, lá tem Festa Junina.

Para saber mais sobre a experiência da comunidade brasileira no Japão, recomendo o livro Um Mundo Paralelo, de Masayuki Fukasawa, que conta a convivência de três anos do autor (um japonês nato que veio para cá, casou aqui, voltou para o Japão e voltou de novo pra cá) com a comunidade dekassegui na cidade de Oizumi, província de Gunma, também conhecida por lá como “a cidade dos brasileiros”.

Esse livro foi originalmente publicado no Japão e ganhou dois prêmios literários (um lá e outro aqui). A versão nacional foi revisada pela minha amiga Célia Oi, diretora do Museu de Imigração Japonesa no Brasil.

Trivia:

(1) Ao contrário do que muitos podem achar, o pastel não é um prato japonês. Alguns afirmam que o pastel primordial (com recheio de carne) foi bolado pelos portugueses, e seu aspecto original sobrevive ainda hoje na forma do pastel de boteco — sim, aquele quadradinho meio murcho que passa o dia inteiro na estufa ao lado da empada, do torresmo e do bolinho de ovo.

A primeira evolução seria o pastel de pastelaria, atividade muito associada no passado com a comunidade chinesa, pelo menos em São Paulo.

Finalmente, a grande contribuição da comunidade japonesa foi dada com a invenção do chamado Pastel de Feira. Alguns comerciantes até já adotam novas idéias, como a fogazza, que pode ser encontrada numa das barraquinhas de comida da feira de fim de semana, na praça da Liberdade.

By the way, alguns dizem que a prova definitiva que comprovaria as origens lusitanas desse petisco está até hoje no interior do pastel de carne, ou seja, tradicionalmente todos eles vêm com uma azeitona no recheio, coisa de português.

Se fosse de japonês, viria com um umeboshi. :^)

Dica: Quer levar um estrangeiro para comer algo tipicamente brasileiro na Liberdade? Arraste-o para a pastelaria Yoka na rua dos Estudantes para comer um pastel de frango com Catupiry.

Motivo? Ao contrário da carne de boi, o de frango não é discriminado por nenhuma cultura/religião e, apesar do nome, o Catupiry é um queijo tipicamente nacional. Também acredito que vai descer bem melhor que uma buchada de bode.

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13 junho, 2007 - Posted by | Papo cabeça

1 Comentário »

  1. Primoroso como sempre! 😀

    Comentário por Marilu | 13 junho, 2007 | Responder


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