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Histórias de Hiroshima

Hoje, dia 6 de agosto, completam-se 62 anos da queda da primeira bomba nuclear sobre a cidade de Hiroshima, em 1945, evento traumático que colocou um fim na campanha do Pacífico e na Segunda Guerra Mundial.

A experiência desse ataque se reflete ainda hoje no inconsciente coletivo do povo japonês — que pode ser considerado a única civilização pós-apocalíptica dos tempos modernos — e se manifesta de diversos modos na sua produção cultural, inclusive nos mangás (quadrinhos japoneses).

De fato, um dos exemplos mais célebres é Hadashi no Gen (Gen Pés descalços no Brasil), a história de uma família da cidade de Hiroshima antes e depois da bomba, escrito por Keiji Nakazawa — ele próprio, um sobrevivente — e publicado em capítulos pela primeira vez na revista Shonen Jump, em 1973.

Seu sucesso foi tão grande que a história foi posteriormente traduzida por grupos pacifistas para outros idiomas, para mostrar a realidade da guerra nuclear na época da guerra fria. Desse modo, Gen se tornou o primeiro mangá a ser amplamente difundido no Ocidente.

akira_explosion.jpgOutro trabalho que merece ser citado é o antológico Akira de Katsuhiro Otomo. A história tem início em 2030, 38 anos após a cidade de Tóquio ter sido destruída por uma misteriosa explosão em 1982 (1992, na versão em inglês), sofrendo uma segunda explosão do mesmo tipo no meio desse épico de mais de 2 mil páginas.

Não se trata exatamente de uma história de Hiroshima, mas ilustra bem como a idéia de que um evento destrutivo de proporções épicas — dividindo eras — são temas recorrentes nos mangás e animês japoneses. Outro bom exemplo é Taiyo no Mokushiroku (um Espírito do Sol).

yunaigi_cover.jpgMais recentemente, uma nova escritora chamada Fumiyo Kouno estourou no mercado japonês com seu pequeno livro Yunagi no Machi, Sakura no Kuni — uma compilação de três histórias curtas que ganhou o grande prêmio do Japan Media Arts Festival de 2004 na categoria Mangá.

Ao contrário de Hadashi no Gen, que foi escrito por um sobrevivente e concentra sua narrativa na época do incidente, o trabalho de Kouno avança em mais de uma década e mostra a vida cotidiana dos sobreviventes — também chamados de Hibakusha — e de novos personagens que nem passaram pela terrível experiência, mas que, de um modo ou de outro, ainda são influenciados pelos fantasmas do passado.

Sob um certo ponto de vista, Yunagi no Machi lembra muito o filme Kuroi Ame (Chuva Negra, no Brasil), dirigido por Shohei Imamura em 1989.

Assim como nessa obra cinematográfica, o protagonista de Yunagi no Machi é uma moça — Minami Hirano — assombrada pelas suas dúvidas sobre seu direito à vida e à felicidade, enquanto muitos de seus entes queridos se perderam na guerra.

Veja um trecho aqui (não se esqueça da direção da leitura: de cima para baixo, da direita para esquerda).

Em Sakura no Kuni, a narrativa se concentra na família do irmão mais novo de Minami — Asahi Ishikawa — e de sua família, que redescobrem detalhes da história famíliar e o valor de seus relacionamentos.

Ao contrário do mangá tradicional, no estilo shoujo, com seus personagens de olhos imensos e expressivos, o traço de Kouno está mais ligado ao estilo ocidental, com linhas simples e texturas monocromáticas à base de finos traços com bico de pena a la Crumb e Jim Woodring, resultando num trabalho mais original e menos estereotipado.

Sua narrativa casual e meio melancólica, segue o ritmo de uma pescaria com vara: leve e serena até o momento da fisgada. Daí em diante, Kouno mostra toda sua técnica narrativa para surpreender nós leitores, para que nos rendamos aos seus momentos muitas vezes felizes, outras nem tanto.

Uma verdadeira jóia da arte sequencial, que merecia uma divulgação mais ampla.

A primeira edição a sair no Ocidente foi a versão em francês — Le Pays des Cerisiers — publicada pela Dargaud em abril de 2006, seguida pela edição norte-americana — Town of Evening Calm, Country of Cherry Blossoms — lançada em fevereiro de 2007, pela Last Gasp.Antes disso, o trabalho de Kouno começou a circular pelos grupos de mangá e anime pela Internet. Seu principal difusor, foi o grupo Kotonoha, que concluiu a tradução da obra para o inglês (de onde retirei os trechos do livro) no final do ano passado, mas tirou a história do ar após a versão norte-americana chegar ao mercado.

yunagi_movie.jpgUm pouco depois, o mesmo grupo noticiou que uma versão para o cinema estava em produção e que deve ter estreado nos cinemas no último dia 28 de julho.

Mais detalhes aqui.

No Brasil, encontrei o livro dessa história (original em japonês) na Livraria Fonomag localizada no bairro da Liberdade, cidade de São Paulo. A versão em inglês pode ser comprada diretamente da editora Last Gasp ou na Amazon.com.

By the way, alguém aí do Japão tem mais detalhes sobre o lançamento do filme?

(rev.ok)

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6 agosto, 2007 - Posted by | Genshiken

1 Comentário »

  1. Uma delícia de texto. Uma verdadeira aula de cultura moderna japonesa.

    Parabéns, Mário. 😀

    Comentário por Marilu | 9 agosto, 2007 | Responder


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