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Quinze minutos com Patrick Head

patrick_head.jpgComo disse num post anterior, na última sexta feira (19/10) durante a visita aos boxes da equipe AT&T Williams tivemos a oportunidade de bater um papo com Patrick Head, diretor técnico da equipe e 30 anos de F1.

A propósito, não se assustem com a cara de mau da foto de divulgação. Mr. Head é uma pessoa muito simpática. :^)

Veja abaixo os melhores trechos dessa divertida conversa:

Mário Nagano: O senhor poderia fazer um balanço da equipe nessa temporada?

Patrick Head: Bem, acho que isso depende do ponto de vista, já que viemos de um ano extremamente ruim em 2006, quando acabamos em oitavo lugar no campeonato. E isso ocorreu em parte por causa de um desempenho inadequado, resultados inconsistentes de pista para pista e uma igual parte devido a baixa confiabilidade.

Logo, nesse ano decidimos analisar o mau desempenho (do ano passado) e decidirmos o que fazer para aumentar o desempenho geral do carro, torná-lo mais adaptável de pista para pista para que possamos ser mais consistentes em termos de resultados e dedicar bem mais atenção no trabalho realizado nos bastidores para melhorar a confiabilidade. Assim, nos concentramos em três coisas: desempenho, consistência e confiabilidade.

Nagano: Lembro-me que dois dias atrás ouvi uma palestra do diretor técnico da equipe BMW que falou muito de seus investimentos em computadores, passando a impressão de que se eles tiverem todos os recursos e poder de computação suficiente para seus testes e simulações, eles poderão ir para onde quiserem. O senhor acha que esse é o ponto?

Head: Obviamente os sistemas de computador são muito úteis mas, fundamentalmente, as coisas que você decide fazer com os computadores vem de cérebros humanos e, definitivamente em CFD e simulações em geral, os sistemas de computador são extremamente úteis, mas você precisa de umas mentes brilhantes para decidir o que colocar nas máquinas e interpretar a informação que sai deles.

Nagano: Ok, com isso o senhor quer dizer que os computadores são uma ferramenta importante…

Head: Sim, são ferramentas fantásticas para os engenheiros e o pessoal das simulações utilizarem.

Nagano: Se o senhor pudesse olhar para o passado e rever todas as inovações tecnológicas que vocês criaram e foram banidas pelo regulamento, quais delas você voltaria a utilizar em seus carros se tivesse a autorização?

Head: Uma que eu particularmente gostei é a Suspensão Ativa, mas ela foi banida sob a alegação de que era um auxílio para o piloto, o que não era verdade. A verdade é que um dos motivos para a sua proibição é que a Ferrari nunca conseguiu assimilar essa tecnologia. De fato, eles não conseguiram fazer o sistema deles funcionar de jeito nenhum! (risos)

A suspensão ativa era fantástica. Porque um carro de Fórmula 1 está sujeito à uma grande variação de altura (em relação ao solo) e para o carro transportar sua carga, precisamos de suspensões bastante firmes. Em velocidades baixas um carro de F1 precisa de suspensões muito, muito firmes para ter ótimo desempenho em curvas e coisas do tipo. E com a suspensão ativa éramos capazes de correr macio com a mesma carga, mantendo uma baixa distância do solo, compensado a pressão do ar atuando na suspensão e acho que essa foi uma das coisas mais interessantes. E tudo isso se tornou viável graças ao uso de computadores instalados no carro e foi um grande desafio técnico — para nós — torná-lo confiável em com todos seus aspectos eletro-hidráulicos e eletrônicos.

Também trabalhamos em dois tipos de transmissão contínua variável (CVT — Continuously Variable Transmission), sendo que um deles usava um contato rolante de funcionamento mecânico, e quando trabalhávamos em algo mais próximo de ser usado nas pistas em parceria com uma empresa holandesa — que acho que hoje faz parte do grupo Robert Bosch — onde produzimos um sistema de transmissão CVT e estávamos testando nas pistas quando, infelizmente, foi banido antes mesmo que pudéssemos usá-lo numa corrida, o que foi uma grande pena.

Antigamente, tivemos grandes resultados com minissaias deslizantes, o que foi um grande desafio e uma técnica interessante mas não gostaria de voltar para essas coisas.

Nagano: Mas depois de tanto trabalho e esforço no desenvolvimento nessas tecnologias que acabaram sendo banidas, isso não é um pouco desapontador?

Head: Sim, isto é desapontador, mas o problema é que se você criar um super carro de seis rodas com grande aerodinâmica, suspensão ativa e transmissão CVT, ele seria tão veloz que os espectadores nem conseguiriam vê-lo na pista (risos). De modo que as limitações progressivas são necessárias, assim os engenheiros estão sempre procurando um jeito de superá-las.

Nagano:
Isso faz parte do jogo?

Head: Sim, faz parte do jogo.

(Repórter do Terra): E o que esperar de mudanças para o próximo ano?

Head: Como estão as regras nesse momento, haverá um pequeno número de mudanças para o carro do próximo ano. Logo, em termos de regulamento, é claro que estaremos construindo um carro completamente novo e obviamente estamos planejando que ele seja muito mais competitivo e mais perto da liderança, bem mais do que estamos hoje.

Para 2009, planejamos grandes modificações. Iremos para pneus slick (sem ranhuras) e mais limitações em termos de efeitos aerodinâmicos.

Nagano: E o que vocês planejam para superar essas limitações? Algo especial?

Head: Bom, se estivermos obviamente não iremos contar para você (risos). Mas obviamente as diversas modificações irão envolver uma melhora na aerodinâmica e na suspensão do carro. E como você já deve saber termos um sistema de computador mais poderoso da Lenovo para nosso grupo de CFT, mas ainda estamos falando do início desse projeto.

Não é porque somos patrocinados pela Lenovo, mas trata-se de um ótimo sistema, e eles construíram para nós um ótimo conjunto formado por várias e várias estações de trabalho que trabalham juntas para oferecer grande capacidade de memória e de processamento. Sim ele poderia ser maior, mas ele se equipara — em termos de capacidade — com qualquer equipamento no mundo.

Nagano: Qual sua opinião sobre a corrida no Brasil? Você gosta daqui?

Head: Ah sim, no meu caso em particular eu conheço bem o Brasil já que minha esposa é brasileira (risos). Ela é paulista e por causa disso eu venho muito para este País. Tenho dois filhos de nove e cinco anos que falam bem o português e, de fato, muito melhor que o inglês.

Gosto muito do Brasil e com relação à pista (Interlagos), ela já foi muito irregular no passado mas foi refeita nesse ano e sei que Bernie Ecclestone está envolvido numa negociação para manter a corrida por aqui por mais cinco anos, sendo que a intenção é de melhorar as instalações nos próximos anos.

Eu também gostaria de dizer que os brasileiros são adoram esse esporte, são muito competitivos e, obviamente, é muito triste de que seu maior herói das corridas — Ayrton Senna — morreu num carro da Williams. Acredito que o público ainda está procurando pelo seu novo Deus das Corridas.

Certamente, Felipe Massa está fazendo um ótimo trabalho, mas fora do carro ele ainda não teria… bem, acho que carisma não seja a palavra correta, mas de qualquer modo os brasileiros ainda estão procurando pelo seu herói e talvez Felipe Massa possa ser essa pessoa, mas teremos que esperar pelo futuro.

Nagano:
Com relação a Felipe Massa, acho que deveríamos dar-lhe tempo para crescer nesse esporte.

Head: Também acho que sim, já que temos fantásticas notícias sobre ele. Ele já assinou com a Ferrari por mais três anos, e tenho certeza que neste documento não existe nada que o obrigue a chegar em segundo lugar atrás de Kimi Raikkonen. Felipe Massa ganhou aqui no ano passado e como ele é um ganhador dominante, acredito que ele estará muito forte amanhã (20/10) … e no domingo (21/10)!

Para quem não viu a corrida: Felipe Massa foi o Pole Position no sábado passado, largou na frente no início da corrida, mas chegou em segundo lugar atrás de Raikkonen — para ajudar a equipe ser campeã — e não por força de contrato (espero eu).

24 outubro, 2007 - Posted by | Entrevista, Lenovo, Tecnologia

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